

![]() O Pomar das ContendasMinha casa tinha um pomar bem variado quando nos mudamos para cá. Entre tantas árvores bem cuidadas e que produziam bastante, cinco goiabeiras, das quais, nós e a vizinhança, não dávamos conta. Espalhávamos goiabas para todo lado. Eu fazia doces variados e, de bom grado, compartilhava nossa produção. Havia porém, uma coisa que me irritava sobremaneira: era a quantidade de meninos pendurados no muro dos fundos, uns puxando os outros, que por sua vez puxavam os galhos, que se quebravam. Entrava em cena a nossa cachorrinha, que ficava furiosa , latia, latia e latia, sem resultado. Os meninos caíam tanto para dentro, quanto para fora do meu quintal e era uma enorme confusão. Eu chegava do serviço à tardinha, cansada, nervosa e cheia de afazeres em casa e ainda vinha a empregada a dizer que não podia mais de tanto barulho. Nos dias em que eu estava em casa, não tinha sossego e meus fins de semana eram um pesadelo. Numa tarde de sábado, eu perdi a paciência e fui lá, como sempre, passar um sermão na meninada, que fugiu com a minha chegada e ficaram duas meninas de mais ou menos dez anos, resistindo bravamente em cima do muro. Aì eu soltei o verbo: -puxa vida, duas meninas já ficando mocinhas, penduradas no muro como dois moleques de rua só por causa de goiabas, que vergonha! Ao que uma delas me respondeu sem nenhuma cerimônia: –Puxa vida digo eu, a senhora tem tanta goiaba e não pode dar um pouco pra gente? –Posso dar todas as goiabas do quintal e não ligo, mas dou para pessoas educadas e que não invadem a casa dos outros. A frente da minha casa é lá em baixo, se quiserem goiabas, vão dar a volta no quarteirão, tocar a campainha feito gente educada e pedir, que eu não faço questão! –Está bem então... Lá vamos nós! E desceram do muro para começar o longo trajeto. Quanto a mim, tratei de correr, peguei duas sacolas bem reforçadas, enchi de goiabas e saí cambaleando terreiro abaixo, para ficar à espera. –Então... " Blim blão"! Atendi pelo portão do lado e a mais esperta delas me disse com ar de deboche: -Dona, será que a senhora pode nos arranjar algumas goiabas? ( os olhos revirados e as mãos desmunhecadas, cheias de trejeitos). Como eu já estava com as duas sacolas no chão, fiz uma pose de gente muito importante e nem me lembrei da minha figura: um vestido longo velho, que eu amava ficar com ele quando estava em casa, um chinelo de pelo vermelho, caindo os pedaços, o cabelo que estava meio curto, todo em pé e mostrando a sua rebeldia, revoltado por estar apertado por uma fita larga, que não era fita e sim um pano qualquer. Coloquei uma das mãos na cintura e balançava o dedo da outra mão, em atitude de ameaça para as duas que me olhavam assustadas, um pé mais à frente que o outro e comecei: -Olhem aqui uma coisa, isto não se faz, etc e tal, e mais isso e mais aquilo, tererê e tererê e falei um tempão, mas o final é que foi triste! Triste não, muito triste! –Eu disse: -E querem saber do que mais? "QUEM SOBE EM CIMA DE LADRÃO PRA MIM, É MURO", VIU ? (e ainda teve um VIU? pra dar ênfase). Elas explodiram numa gargalhada desenfreada, uma se agarrou na corrente que passava como guirlanda, enfeitando a rampa e foi caindo devagar até chegar ao chão, de tanto rir e a outra desceu a rampa quase sufocada, roxa para rir melhor lá embaixo, já sem fôlego. Quando eu percebi o que havia dito, peguei as sacolas e as dei à menina agarrada na corrente, fechei o portão, perdi a pose, perdi o rebolado, perdi o ânimo de continuar trabalhando e fiquei muito tempo parada no meio do terreiro, com o rosto queimando (devia estar vermelho), com a mão no queixo, olhando as árvores e pensando seriamente em mandar cortar todas, arrancar as plantas e cimentar geral.
Maga - Lá pelos idos de 1980
Pássaro Feliz
Enviado por Pássaro Feliz em 15/09/2025
Alterado em 15/09/2025 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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